segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Gênesis

Tenho um medo terrível de andar de avião.

Irónico, não? Mas a vontade e o sonho são maiores que a dor, maiores que o bater acelerado do coração, maiores que a transpiração das mãos, maiores que o medo, medo de qualquer coisa, nem sei bem o quê.

Viajar de avião é especial e toda a envolvente leva o viajante a sentir-se especial.

O ritual das malas - a escolha das t-shirts preferidas, das meias que nunca vão, o polar para todas as ocasiões; o ritual do check-in (chequinho), a história das revistas, que mesmo que vás como o rei (nuzinho em pelota) achas sempre que a máquina vai apitar e que o segurança vai calçar as luvas; o entrar, o sentar e por o cinto, parecem uma eternidade.

Pensar que vais cortar o ar em bocadinhos, que dormes e acordas numa outra realidade, numa outra "terra", qual máquina do tempo presente. Que sais com frio e chegas com calor, que sais saciado e chegas com fome e sede. Pensar que os nossos avós ou bisavós, apenas ouviam falar e agora tu estás lá, tu estás na história, no sítio, no local exacto. Muitobom!

Muitas vezes é aqui que tudo começa. Muitas vezes é neste frenesim que o sonho se transforma em realidade. Muitas vezes é nesta azáfama que a dor espairece. Que saltas e corres, que comes e bebes, que ris e danças, que falas e ouves, nem sabes bem para onde nem com quem. Mas chegas, aterras tal vaivém espacial, tal muído que caí a primeira vez de bicicleta, tal é a vontade, tal é o sonho.

E o passaporte, feliz e contente, na mão ainda meio húmida, à espera da autenticação, da tinta, do sinete, do selo, do carimbo.